segunda-feira, 7 de março de 2022

Centro de reprodução de Silves já libertou cerca de uma centena de linces

Muito se fala deles, mas poucos são os que tiveram oportunidade de observar um dos felinos mais misteriosos, raros e belos do planeta. Foi no Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico (CNRLI), em Silves, que acompanhámos o processo de preparação de um jovem lince para o momento-chave da sua vida. Para Silves, assim batizado, e mais três (linces) (Paprika, Senegal e Sismo), fevereiro foi o mês da sua entrega à natureza
Esta foi uma semana especial para o JA. Assistimos na primeira pessoa à preparação de dois linces-ibéricos para o momento da sua introdução na natureza. Silves (macho) e Paprika (fêmea), nascidos e criados no CNRLI, foram libertados no dia 22 de fevereiro de 2022 na zona de Serpa, momento que não foi acompanhado pelos nossos repórteres por se tratarem de terrenos privados, onde os proprietários optaram por não permitir a divulgação do momento.
Felizmente, dois dias depois, acompanhámos a primeira solta de linces-ibéricos, nascidos em cativeiro, em território algarvio. Apesar de Sismo e Senegal, macho e fêmea, respetivamente, terem nascido no Centro de Reprodução de El Acebuche (Andaluzia, Espanha), foram libertados Giões, concelho de Alcoutim.
A que assistiram mais de uma centena de pessoas entre as quais o secretário de Estado da Conservação da Natureza, Paulo Catarino, Nuno Banza, presidente do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), João Alves, técnico superior do ICNF e responsável pelo projeto de reintrodução do lince (LIFE Lynx Connect), diversas individualidades e alunos dos agrupamentos escolares do concelho.
Crianças das escolas de Alcoutim e Osvaldo Gonçalves libertam “Sismo”. 📸 © ICNF
Dias especiais para o CNRLI e para todos os centros ibéricos
O entusiasmo, a curiosidade e a alegria estavam estampadas no rostos das equipas (o JA incluído). Rodrigo Serra, veterinário e diretor do CNRLI envergava um brilho especial no olhar quando nos contou que “todos os dias que saem animais para projetos de introdução na natureza são dias muito felizes”. Apesar de ter a sorte de fazer um “trabalho entusiasmante”, com uma grande missão associada e do gozo que estes momentos em particular proporcionam às equipas, confessa que nos dias de libertação “a preocupação” é outra das emoções dominantes nas equipas, que ficam a pensar “o que lhes irá acontecer a seguir” e justifica “eles são os nossos meninos, seguimo-los pelas câmaras desde que nasceram, mas o mais importante é que terão a oportunidade de viver uma vida livre e é isso que nos move”.
O trabalho desenvolvido pelo CNRLI, que abriu portas em 2009, tem como principal missão a manutenção da genética desta espécie e a sua reprodução, em cativeiro, com vista ao restabelecimento das populações de linces na Península Ibérica, explicou ao JA Rodrigo Serra. O CNRLI alberga, monitoriza e reproduz os exemplares de lince-ibérico que permitirão assegurar a continuidade do processo de introdução no seu habitat natural. O CNRLI já libertou cerca de uma centena de animais desde que o processo de reprodução começou, no ano de 2010. Hoje, existem 16 cercados com casais linces, prontos para reproduzir, embora o número de crias nascidas tenha sofrido uma pequena redução nos últimos anos, o que pode estar relacionado com a longevidade das fêmeas do CRNLI.
Preparação para o dia D
O trabalho no CNRLI começa assim que as pequenas (e tão desejadas) crias nascem. Nesse momento, são recolhidas amostras de sangue para garantir que estão bem, procedimento que vai ainda permitir traçar o perfil genético de cada animal. A partir dos três meses, é-lhes colocado um microchip e até aos 11 meses, altura em que já podem ser libertados, os linces passam por um treino específico que os prepara para o dia em que serão libertados na natureza. Este treino é fundamental, pois tal como esclarece Rodrigo Serra, é durante estes meses cruciais que os linces adquirem competências sociais entre si e desenvolvem a capacidade de caçar e de defesa, indispensáveis na vida selvagem. Durante o treino, os técnicos garantem ainda que os linces ganham um comportamento de recusa perante humanos, que os fará, na prática, prolongar o seu tempo de vida, que em meio selvagem não ultrapassa os 10 anos. Já em cativeiro, estes animais podem viver até aos 15 anos.
Uma vez aptos do ponto de vista comportamental e clínico, tal como aconteceu no caso dos juvenis Silves e Paprika (libertados no dia 22 de fevereiro em Serpa) e de Sismo e Senegal (libertados dois dias depois em Alcoutim), os lince estão prontos para enfrentar a Mãe-Natureza e todos os desafios que os esperam. Por norma, é entre os meses de janeiro e fevereiro que são feitas as capturas, de forma a que os técnicos, através da anestesia, verifiquem que os animais não vão transportar doenças para o campo e que não serão (mais) um fator de risco para as populações que estão na natureza. A colocação dos colares de seguimento (com sinal de rádio e GPS) é o último passo. Estes rastreadores irão acompanhá-los na sua jornada selvagem, por vezes solitária, ainda que o olhar atento dos técnicos seja uma espécie de “anjo da guarda” para estes admiráveis seres. Em função do perfil genético, e depois de libertados, o lince decide se permanece nas redondezas do local da solta ou se parte em busca de outros territórios, sendo estes animais capazes de fazer milhares de quilómetros durante o seu tempo de vida.
Quem melhor conhece os linces do CNRLI são os etólogos, que estão 24 horas à frente das câmaras a ver tudo o que os linces fazem. Contudo, é importante sublinhar que nenhum técnico tem contacto direto com os animais (à exceção do momento em que são colocadas as coleiras, ou quando se vai verificar se as crias estão de boa saúde). Rodrigo Serra esclarece que estes “são bichos selvagens que não podem ter contacto com humanos, apesar de não verem o Homem como fonte de alimento. Até porque em duas ou três gerações, caso se estimulasse o contacto com os humanos, isso iria traduzir-se na perda de diversidade genética e na perda de reportório comportamental, o que iria influenciar negativamente o futuro das populações selvagens”. João Alves, entende a curiosidade e o misticismo em torno da espécie, mas acrescenta que “quanto mais pessoas entrarem no CNRLI, a probabilidade de poderem transportar agentes patogénicos é muito grande e daí este espaço não ser visitável. O CNRLI não é um zoo”.
📸 © ICNF
Os desafios que a espécie enfrenta
O processo de extinção do lince-ibérico começou em meados do século XX. A perseguição direta pelos humanos e a destruição do habitat contribuíram para essa realidade, mas o que realmente dizimou as populações de linces nos dois países foram duas pandemias de doenças virais que afetaram o coelho-bravo, a principal fonte de alimento desta espécie. O lince ficou sem presa e a falta de alimento “foi o grande golpe” para a queda das populações, no ponto de vista de Rodrigo Serra. Contudo, também o furtivismo e os atropelamentos continuam a ser grandes ameaças para a espécie.
O lince-ibérico é o mamífero conhecido com menor diversidade genética. Essa falta de diversidade, segundo os especialistas com quem falámos, traduz-se na frequência de doenças genéticas que atingem esta espécie. A epilepsia juvenil ou da criptorquidia (quando os testículos não descem ou a ausência de um ou dos dois testículos na bolsa testicular) são doenças que comprometem a reprodução e continuidade da espécie.
Para inverter a grande consanguinidade da espécie que existia na transição do século XIX, que era sinónimo de doenças fatais e deficiências nas crias e que comprometiam, uma vez mais, a continuidade da espécie, os quatro centros ibéricos de reprodução de linces asseguram o intercâmbio dos animais, com o objetivo de aumentar a sua diversidade genética, conservar e fazer reproduzir aqueles que apresentam uma genética mais rara. Para o responsável pelo projeto LIFE Lynxconnect, outro dos grandes objetivos dos CNRLI é diversificar a população o mais possível e “introduzir os animais com a genérica certa, nos sítios certos e onde faz falta”.
O lince-ibérico fez parte da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (UICN) como espécie “criticamente em perigo” até 2015. Hoje, graças ao trabalho conjunto dos quatro centros ibéricos de reprodução e conservação da espécie (três em Espanha e o CNRLI, em Portugal), o lince é considerado uma espécie “em perigo”. Um dos objetivos do CNRLI para os próximos anos é que o lince-ibérico passe a categoria de espécie “vulnerável”, adiantou Rodrigo Serra. João Alves acredita que os linces-ibéricos possam sair do estatuto de espécie ameaçada entre 2035 e 2040, altura em que estarão numa situação de conservação favorável, isto caso se consiga alcançar um objetivo: a existência de 750 fêmeas reprodutoras em território ibérico, que garantirão a sustentabilidade da espécie.
📸 © ICNF
O ponto de viragem
Na Península Ibérica, até ao anos 60, os linces eram considerados uma espécie nociva e até uma praga, isto porque a destruição do habitat, a perseguição das populações rurais e doenças nos coelhos levavam a que estes animais se alimentassem de espécies domésticas como as galinhas ou o gado. Felizmente, a partir da década de 70, a perceção da opinião pública mudou e os censos, articulados entre Portugal e Espanha, confirmaram que esta era uma espécie ameaçada, não existindo dados de populações residentes na transição do século na Península Ibérica. As pressões e movimentações das ONG ‘s, ambientalistas e de entidades como a União Internacional para a Conservação da Natureza uniram-se no início do século XXI para recomendar a Portugal e Espanha medidas concretas de conservação que impedissem a extinção da espécie.
No âmbito da XIX Cimeira Luso Espanhola (2003), os responsáveis pela tutela do Ambiente e Conservação da Natureza de Portugal e de Espanha acordaram que o lince-ibérico seria uma das espécies alvo da colaboração em termos de conservação da natureza. Nesse âmbito, foi assinado, em 2004, um Memorando de Entendimento entre os dois países para a cooperação sobre o lince-ibérico, processo coordenado pelo ICNF e pela Direção Geral para a Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (Espanha). A partir daí foram assinados outros protocolos até que meses antes de vir para Silves a primeira fêmea – Azahar -, emprestada por Espanha, foi assinado um último protocolo sobre a cedência de exemplares de Espanha para Portugal, com vista à reprodução.
O papel dos caçadores e das populações locais
O trabalho de sensibilização com caçadores e populações locais começou a ser feito ainda antes da primeira libertação, em Mértola, que aconteceu em 2014. Na ótica de João Alves, “um dos aspetos que tem que ser avaliado é a aceitação por parte das populações que residem ou que têm atividades económicas nos territórios que nós identificamos terem características próprias para acolher o lince”. Nesse sentido, reconhece que os gestores das zonas de caça “são e têm sido uma peça fundamental pela gestão ativa e efetiva desses territórios para favorecer a prosperidade do coelho-bravo, pois o lince está onde está a presa”. O técnico do ICNF, que acompanha a vida do CNRLI desde o primeiro dia, afirma que os caçadores e os locais reconhecem o efeito positivo que a presença do lince tem. Para além de desempenharem um papel ligado à limpeza sanitária do território (por se alimentarem de coelhos doentes), estes animais repelem outros pequenos predadores que são conhecidos pelos prejuízos que causam aos agricultores, como o caso das raposas, dos gatos bravos ou das genetas.
📸 © ICNF
A espécie prospera no Vale do Guadiana
A monitorização de 2021 da população de linces-ibéricos, reintroduzida no Vale do Guadiana (no âmbito do projeto LIFE Iberlince) desde 2014, revelou recentemente que há 70 novas crias de um total de 24 fêmeas reprodutoras. São mais 10 nascimentos e mais seis fêmeas reprodutoras comparativamente ao ano anterior. Sete anos após o início do processo de introdução, são agora referenciados cerca de 200 linces distribuídos por um vasto território que se estende entre os concelhos de Serpa e de Tavira (e mais de mil na Península Ibérica). Um dos aspetos mais relevantes de 2021 foi a consolidação da população em território algarvio, onde agora residem cerca de 22 exemplares e onde ocorreram nove nascimentos, existindo ainda um amplo território que poderá vir a ser ocupado pela espécie. Estas áreas estão agora a ser consolidadas, ampliadas e interligadas no âmbito do projeto LIFE Lynxconnect, liderado pela Centro de Cria de La Olivilla (CAGPyDS) da Junta de Andaluzia, iniciado em setembro de 2020 e que, em Portugal, congrega como parceiros, para além do ICNF, a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL) e a Infraestruturas de Portugal.
A Águas do Algarve é a empresa responsável pelo Projeto Ambiental da Herdade das Santinhas, onde se localiza o CRNLI. O contrato de comodato entre a Águas do Algarve e ICNF é válido até 2025, ano a partir do qual terão de ser renegociadas as condições de permanência do CNRLI em Silves, que todos acreditam ser renovável. De acordo com João Alves, o gasto anual do Centro está balizado entre 800 mil e um milhão de euros, valor que inclui as despesas com o pessoal, alimentação dos linces, gerência, conservação do espaço, medicamentos e utensílios veterinários, entre outras necessidades, asseguradas pelo ICNF e pelos fundos europeus. A Águas do Algarve suporta o projeto com o montante de 300 mil euros ao ano.
O futuro da espécie
“Apesar dos projetos e dos números que temos conseguido, não estamos livres de perigo, de num futuro relativamente próximo haver um colapso das populações, caso o controlo da genética não seja assegurado. Ainda há muito trabalho pela frente”, alerta o diretor do CNRLI.
Durante a solta de Sismo e Senegal, Nuno Banza anunciou que o objetivo do projeto ibérico de recuperação do lince-ibérico é chegar ao “reequilíbrio do ecossistema” para “deixar de haver uma necessidade de reintrodução permanente”, com a criação de uma “comunidade de animais que seja sustentável e viável do ponto de vista genético”. Quando isso for possível, explicou, o projeto passará a “apenas recuperar animais que possam ser magoados em atropelamentos ou armadilhas ou que possam ter algum problema de saúde”, passando os centros “a ter mais trabalho de recuperação e apoio à existência da comunidade do que propriamente de reintroduções”. O diretor do ICNF sabe qual é o caminho a seguir e refere que a meta será “ter uma comunidade saudável e sustentável que possa ir sendo alargada e que ocupe a verdadeira função do lince, que acaba por caçar os coelhos mais frágeis, mais doentes, e acaba por ter uma função de regulação ecológica do sistema”, acrescentou.
O sucesso da introdução do lince, verificado ao longo destes anos, resulta de um esforço ibérico em que associações de caçadores, agricultores, proprietários, ONGs, autarquias e entidades governamentais se uniram para resgatar e reverter a tendência de evolução de uma espécie que caminhava para a extinção. Apesar de todos os esforços, é de lamentar que o lince-ibérico continue a ser uma das espécies mais ameaçadas do mundo e o carnívoro em maior perigo na Europa.
Foi com entusiasmo que diversas individualidades acompanharam a operação de libertação de Sismo e Senegal, entre os quais Osvaldo Gonçalves, presidente da Câmara de Alcoutim, João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve, Mário Dias, diretor regional Adjunto de Agricultura e Pescas do Algarve, entidades e associações ligadas ao ambiente e conservação da natureza, entidades públicas, técnicos, guardas da natureza, alunos do Agrupamento de Escolas de Alcoutim, professores e os proprietários dos terrenos onde a solta se realizou. Simbolicamente, foram quatro crianças do Agrupamento de Escolas de Alcoutim que abriram as portas das duas gaiolas onde aguardavam os linces.
Joana Pinheiro Rodrigues
📸 © ICNF
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domingo, 6 de março de 2022

Lince-ibérico representa uma história de sucesso na recuperação de espécie ameaçada

Sete anos após o início do projeto, já foram reintroduzidos no território português e espanhol 94 linces-ibéricos. Atualmente, e contando também com a reprodução na natureza, já vivem mais de 200 linces em liberdade no Baixo Alentejo e no Sotavento Serrano do Algarve.
📸 © ICNF
No passado dia 24 de fevereiro, em Alcoutim, foram reintroduzidos na natureza mais dois exemplares de lince-ibérico, o Sismo e a Senegal. Aquela que foi a primeira solta de linces-ibéricos a ter lugar no Algarve vai acrescentar mais dois exemplares à comunidade de cerca de 200 linces-ibéricos que vivem distribuídos por um vasto território, em Portugal, que se estende entre os concelhos de Serpa e de Tavira.
Para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), trata-se de uma «história de sucesso resultante de uma consistente cooperação Ibérica», que se constata sete anos após o início do processo de reintrodução desta espécie.
Um pouco de história
Segundo o ICNF, no último quartel do século XX, não existia em território continental português nenhuma população estável de lince-ibérico. Os últimos exemplares observados nas décadas de 70 e 80 constituíam já indivíduos isolados, residuais ou dispersantes, provenientes de movimentos transfronteiriços entre Espanha e Portugal.
Os censos então realizados em Portugal e em Espanha apontavam para um efetivo inferior a 100 animais em toda a península ibérica, território de onde esta espécie é endémica, o que agravava o estatuto de “criticamente em perigo de extinção” atribuído pela UICN já em 1996.
Desde os anos setenta do século XX que a situação da espécie despoletou diversas iniciativas, quer pelas entidades da administração central, responsáveis pela conservação da natureza, quer por diversas ONG.
Preparativos para mais uma solta, nas Romeiras (2015) 📸 © ICNF
A situação em Espanha, embora menos crítica, também era de acentuada redução de efetivos em liberdade, pelo que os dois Estados ibéricos celebraram, em 1 de outubro de 2004, em Santiago de Compostela, por ocasião da XX Cimeira Luso-Espanhola, o “Memorando de Entendimento para a Cooperação sobre a Águia-Imperial e o Lince-Ibérico”.
A partir daqui foram estabelecidas inúmeras iniciativas para consolidar este objetivo comum de preservação das espécies endógenas, que acabou por culminar na cedência de Espanha de 14 machos e seis fêmeas, para integração no CENTRO NACIONAL DE REPRODUÇÃO DO LINCE IBÉRICO (CNRLI), que foi entretanto construído pela empresa Águas do Algarve, e inaugurado em maio de 2009, no concelho de Silves, como medida de sobrecompensação ambiental pela construção da Barragem de Odelouca e do Túnel de Ligação Funcho-Odelouca.
A concretização efetiva ocorreu em outubro de 2009, com a chegada ao CNRLI da primeira fêmea cedida a Portugal pela Junta Autónoma de Andaluzia, a Azahar. A esta fêmea sucederam-se outros exemplares, que constituíram a base do núcleo reprodutor fundador do Centro.
Solta de Pipa, lince nascido em liberdade e capturado para colocação de colar-emissor, na Herdade das Romeiras, em São João de Caldeireiros, Mértola (2018). 📸 © ICNF
Uma comunidade em crescimento
Ao todo, já foram reintroduzidos no território português e espanhol 94 linces-ibéricos. Estes animais libertados são provenientes de qualquer um dos cinco centros de reprodução existentes na península Ibérica, sendo a sua proveniência decidida por um Comité de Cria em Cativeiro de Lince-Ibérico (CCCLI), que congrega representantes técnicos e científicos de Espanha e de Portugal.
Esta equipa estabelece, em função do seu perfil genético, os animais e os locais onde são libertados, tal como decide previamente os emparelhamentos (acasalamentos) efetuados anualmente nos centros de reprodução.
Sete anos após o início do processo de reintrodução, são agora referenciados cerca de 200 exemplares em Portugal, distribuídos por um território que se estende entre os concelhos de Serpa e de Tavira.
📸 © ICNF
Durante o ano passado, registou-se ainda a ocorrência de 9 nascimentos na região do Algarve, existindo ainda um amplo território que poderá vir a ser ocupado pela espécie.
Segundo o ICNF, o sucesso desta operação deve-se também à colaboração de proprietários e de gestores de herdades e de zonas de caça, à gestão sustentável do território, à abundância de coelho-bravo, à atitude favorável evidenciada pela população local relativa à presença do lince e à conectividade da população de linces do Vale do Guadiana com as comunidades presentes noutras áreas de Espanha, fundamental para o incremento da variabilidade genética.
📸 © ICNF
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sábado, 5 de março de 2022

Extremadura espanhola soltou na natureza oito linces-ibéricos

Extremadura espanhola soltou na natureza oito linces-ibéricos
Por Helena Geraldes
📸 © Junta da Extremadura
A temporada de reintroduções de linces-ibéricos na natureza está a decorrer em Portugal e Espanha. Na semana passada, a Extremadura espanhola libertou oito animais nascidos em cativeiro, incluindo no Centro português em Silves.
A notícia avançada a 26 de Fevereiro pela Consejería para la Transición Ecológica y Sostenibilidad da Junta da Extremadura dá conta da libertação de oito linces, quatro fêmeas e quatro machos.
📸 © Junta da Extremadura
Estes animais nasceram nos Centros de Reprodução em cativeiro de Silves (Portugal), de El Acebuche, Zarza de Granadilla e La Olivilla.
Foram libertados na zona dos rios Ortiga, Matachel e Valdecigueás.
Com esta reintrodução, a população de linces na Extremadura espanhola será agora de 176 animais. Isto porque, no início do ano, a região contava com 168 linces, entre os quais 53 fêmeas reprodutoras e 53 crias, nascidas em 2021.
📸 © Junta da Extremadura
O objectivo para o futuro “centra-se, especialmente, em consolidar as populações existentes, garantindo a interconexão genética e funcional dos diferentes núcleos”, explica a Junta em comunicado. “Para isso, realiza-se um minucioso estudo genético prévio dos indivíduos a soltar nos diferentes territórios.”
Os espaços onde hoje existem linces têm algumas características em comum: um habitat mediterrânico propício à espécie, uma elevada densidade de coelho-bravo e um grande apoio social.
A reintrodução de linces na Extremadura espanhola começou em 2014. Assim como aconteceu em Portugal, mais concretamente no Vale do Guadiana.
Este ano serão reintroduzidos em Portugal um total de cinco linces-ibéricos em Portugal, duas fêmeas e três machos. A 22 de Fevereiro foram libertados no concelho de Serpa o macho Silves, nascido no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), em Silves, e Paprika, fêmea de três anos no seguimento de uma recaptura para avaliação. A 24 de Fevereiro foi a vez de Sismo, um macho, e Senegal, uma fêmea, libertados na freguesia de Giões, concelho de Alcoutim. Foi a primeira libertação de sempre de linces no Algarve.
📸 © Junta da Extremadura
A pouco e pouco, o lince-ibérico (Lynx pardinus) está, assim, a regressar aos seus territórios históricos em Portugal e Espanha. O lince-ibérico é uma espécie classificada desde 22 de Junho de 2015 como Em Perigo de extinção, depois de anos na categoria mais elevada atribuída pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Criticamente em Perigo.
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sexta-feira, 4 de março de 2022

ONU elege lince ibérico como protagonista no DIA MUNDIAL DA VIDA SELVAGEM

ONU elege lince ibérico como protagonista no DIA MUNDIAL DA VIDA SELVAGEM
O Dia Mundial da Vida Selvagem assinalou-se esta quinta-feira, 3 de março, e pretende alertar para o estado de conservação de algumas das espécies da fauna e flora selvagens mais ameaçadas de extinção, bem como para a necessidade de encontrar e implementar soluções para conservá-las.
O lince ibérico foi uma das espécies escolhidas simbolicamente para ilustrar o lema “Recuperar espécies-chave para restaurar os ecossistemas”, que assinala este ano o Dia Mundial da Vida Selvagem. O objetivo é alertar para o estado de conservação de algumas das espécies da fauna e flora selvagens mais ameaçadas de extinção, direcionando as discussões em torno dessas espécies para a necessidade de se encontrarem e implementarem soluções para conservá-las.
A imagem do lince ibérico está assim presente num dos posters oficiais preparados pela ONU para promover a defesa da vida selvagem, servindo como um exemplo concreto de uma ação de sucesso. A ONU recorda, a propósito desta escolha, que “o lince ibérico foi um predador crítico nos ecossistemas mediterrânicos”, que “há 20 anos só existiam 94 linces ibéricos”, mas que “um programa de recuperação permitiu que o número de linces ibéricos subisse para mais de 1.100, mostrando assim o poder da conservação” na natureza.
Uma referência ao projeto LIFE Lynxconnect, desenvolvido em parceria entre Portugal e Espanha, e que ao longo da última década conseguiu aumentar para mais de 1.100 o total de exemplares de linces em liberdade em toda a península ibérica (209 dos quais em Portugal, com intervenção direta do ICNF).
A Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza, avalia em cerca de 8400 as espécies selvagens de fauna e flora como Criticamente em Perigo e perto de 30000 Em Perigo ou Vulnerável. Partindo destes números, estima-se que mais de um milhão de espécies estejam ameaçadas de extinção.
A redução continuada de espécies, habitats e ecossistemas ameaça toda a vida no planeta, seres humanos incluídos. Por todo o mundo, as pessoas dependem dos recursos de vida selvagem e da biodiversidade, nas mais diversas áreas, como a alimentação, saúde ou vestuário, entre muitas outras. Milhões de pessoas dependem também da natureza como fonte de subsistência e desenvolvimento socioeconómico.
Em 2022, o Dia Mundial da Vida Selvagem direciona o debate para a irreversibilidade da extinção das espécies com a categoria de Criticamente em Perigo, para apoiar o restauro dos seus habitats e ecossistemas e promover o uso sustentável de recursos partilhados.
Todos os eventos que decorrerão no âmbito deste Dia Mundial da Vida Selvagem serão inspirados e procurarão direcionar os esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU 1 (Erradicar a pobreza), 2 (Erradicar a fome) 12 (Produção e consumo sustentáveis), 13 (Ação climática) 14 (Proteger a vida marinha) e 15 (Proteger a vida terrestre).
ONU elege lince ibérico como protagonista no DIA MUNDIAL DA VIDA SELVAGEM
● Materiais Dia Mundial da Vida Selvagem
● Materiais educativos e informativos
Materiais:
● Poster 1
● Poster 2
● Poster 3
● Cartaz 1
● Cartaz 2
● Cartaz 3
● Banner 1
● Banner 2
● Colorir
● Para Colorir
RECUPERAR ESPÉCIES CHAVE PARA RESTAURAR ECOSSISTEMAS
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quinta-feira, 3 de março de 2022

O lince-ibérico tem menos mutações altamente nocivas do que o seu irmão lince-euroasiático

Análises aos genomas do lince-ibérico e do lince-euroasiático mostram-nos as diferenças na carga de mutações genéticas nocivas nesses dois felinos. Todo o conhecimento é importante na conservação destas espécies tão carismáticas.
📸 © Antonio Rivas Salvador
Há cerca de 1100 linces-ibéricos a viver em liberdade
Não chegava ter um grande plano geral da informação genética do lince-ibérico – como já se tinha com a sequenciação do genoma deste felino. Agora, fez-se um plano mais aproximado desse material contido no seu ADN. Nessa análise, observou-se que as populações de linces-ibéricos têm uma carga menor de mutações altamente nocivas do que as populações de uma espécie irmã, o lince-euroasiático. Neste mesmo trabalho, publicado esta semana na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences ( PNAS ), também se elaborou um álbum com as revelações das mutações nocivas no lince-ibérico, o que pode ajudar na conservação deste animal.
O lince-ibérico tem menos mutações altamente nocivas do que o seu irmão lince-euroasiático
Purging of deleterious burden in the endangered Iberian lynx
Significance
The dynamics of deleterious variation under contrasting demographic scenarios remain poorly understood in spite of their relevance in evolutionary and conservation terms. Here we apply a genomic approach to study differences in the burden of deleterious alleles between the endangered Iberian lynx (Lynx pardinus) and the widespread Eurasian lynx (Lynx lynx). Our analysis unveils a significantly lower deleterious burden in the former species that should be ascribed to genetic purging, that is, to the increased opportunities of selection against recessive homozygotes due to the inbreeding caused by its smaller population size, as illustrated by our analytical predictions. This research provides theoretical and empirical evidence on the evolutionary relevance of genetic purging under certain demographic conditions.
Abstract
Deleterious mutations continuously accumulate in populations, building up a burden that can threaten their survival, particularly in small populations when inbreeding exposes recessive deleterious effects. Notwithstanding, this process also triggers genetic purging, which can reduce the deleterious burden and mitigate fitness inbreeding depression. Here, we analyzed 20 whole genomes from the endangered Iberian lynx and 28 from the widespread Eurasian lynx, sister species which constitute a good model to study the dynamics of deleterious mutation burden under contrasting demographies, manifested in the consistently smaller population size and distribution area of the Iberian lynx. We also derived analytical predictions for the evolution of the deleterious burden following a bottleneck. We found 11% fewer derived alleles for the more putatively deleterious missense category in the Iberian lynx than in the Eurasian lynx, which, in light of our theoretical predictions, should be ascribed to historical purging. No signs of purging were found in centromeres nor in the X chromosome, where selection against recessive deleterious alleles is less affected by demography. The similar deleterious burden levels for conspecific populations despite their contrasting recent demographies also point to sustained differences in historical population sizes since species divergence as the main driver of the augmented purging in the Iberian lynx. Beyond adding to the ongoing debate on the relationship between deleterious burden and population size, and on the impact of genetic factors in endangered species viability, this work contributes a whole-genome catalog of deleterious variants, which may become a valuable resource for future conservation efforts.
Purging of deleterious burden in the endangered Iberian lynx
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Lince ibérico a limpar a sua bela pelagem.
Localizan a un ejemplar de lince cerca del término municipal de Yecla
Maravilhoso espécime de lince ibérico (Lynx pardinus)

terça-feira, 1 de março de 2022

¿RUGEN LOS LINCES?

La temporada de celo va llegando a su fin en los centros de cría. Ya son pocas las parejas establecidas esta temporada 2022 que quedan por copular. Compartimos este vídeo de las últimas cópulas que se están registrando en el Centro de Cría de El Acebuche para que podáis escuchar (🔊encended el audio) algunas de las vocalizaciones que realiza esta especie durante la fase de estro. En la familia de los felinos, las únicas especies que rugen son los leones, los tigres, los jaguares y los leopardos 🦁🐯, todas pertenecientes al género Panthera, pero el lince ibérico, una de las cuatro especies del género Lynx, como podéis comprobar, tiene también un tipo de vocalización que puede asemejarse (muy ligeramente) por su contundencia y estruendo, a un rugido..¿no os parece?
🎥 © Lynx ex-situ
📸 © Lynx ex-situ
📸 © Lynx ex-situ
📸 © Lynx ex-situ

Cronologia do estado de conservação do lince ibérico

Gráfico de mortes por ano

Projeto: Causas de morte do lince ibérico

A Reconquista do Lince Ibérico (Jogo)

1.º lugar na categoria “2.º Ciclo” – Agrupamento de Escolas de Vouzela
O Agrupamento de Escolas de Vouzela (EBI de Vouzela), Eco-Escola desde 2007/2008, apresentou um jogo informático intitulado “A Reconquista do Lince”, criado por um professor e por dois alunos do 5.º ano. O jogo, que já está disponível para ser experimentado, ainda vai sofrer algumas alterações por proposta da Fundação IBERLINX que está interessada no projeto e só depois serão lançadas as versões para computador, smartphone e tablet. (versão experimental).